From Lisboa


A travessia do Tejo, pela Ponte 25 de Abril, é um espectáculo que me deixa sempre extasiada. O perfil da cidade vai-se-nos revelando de forma um pouco desordenada e mutável, quase instável, ainda que, estranhamente, todas essas características concorram para um todo homogéneo, vivo e tranquilo. Essa tranquilidade advém-lhe em larga medida da camada branca onde o sol põe, em dado momento do dia, reflexos dourados; de uma ideia branca que se desprende do seu conjunto. Vista dali, da altura que torna a visão mais abrangente e mais limpa, o branco especial da cidade permite mesmo imaginar o ar helénico que nunca chegou realmente a ter, sem que tal retrocesso no tempo seja incompatível com outros séculos e outras proveniências. Observo com agrado as miniaturas do Castelo, de São Vicente, da Sé, do Terreiro do Paço e da geometria milimétrica da Baixa; do CCB junto à ínfima Torre de Belém e do Padrão dos Descobrimentos, após o qual a terra guina e principia a deixar de ser Lisboa. Nada parece verdadeiramente real até se atingir o meio da travessia. Desta altura, posso sonhar que entro num cenário de filme, e os edifícios cabem na palma das mãos, a pedra converte-se em cartolina, o verde é sintético, as estradas falsas e amovíveis; numa perspectiva alternativa, não menos fantasiosa, a capital mais a ocidente da Europa Continental é uma espécie de museu prodigioso, detalhadamente esculpido a partir da ideia de uma outra cidade, uma metrópole que exista primeiro noutra dimensão, platónica e distante. Mas, felizmente, as coisas não se passam assim e Lisboa, tanto em ideia como em corpo, existe à saída da ponte. Analisada através desta visão silenciosa, mostra uma grandeza concisa, é frágil e forte, serena, compósita, antiga e recente. À medida que o trajecto por percorrer encurta, os espaços crescem, fecham-se ângulos e um leve bulício quotidiano sobrevém ao silêncio. O Tejo é uma planície de água, de aspecto muito diferente daquele rio que me acompanha nos meus passeios – mexido, odoroso, contido ou bravio, presente. Visto daqui, transforma-se num enorme caminho de água, que muda de configuração suavemente. Água azul, verde, cinzenta, dourada, dura, castanha e brilhante; água gelada, provavelmente, mas em todo o caso com aparência quente. É uma imagem lenta que inspira o seu quê de melancolia, como se, assim, o rio se exprimisse com nostalgia, nostalgia da terra que deixou ou da que se prepara para deixar ou talvez da outra terra longínqua, o lugar aonde, separado, deveria chegar.
Estou na Brasileira a cafezar, e o que acabaste de ler é mero devaneio (ou talvez não) que me ajudou a preencher de azul o vazio da página enquanto tu não chegas.
11 Comments:
Rach, embora não estivesses à minha espera, achei bem terem-te feito esperar.
De cima da ponte, Lisboa é mesmo muito bela.
Beijo
... lisboa é a minha cidade, azul a minha cor e o to and from a minha rotina diária
tudo muito familiar - o tejo, os cacilheiros, o porto... de abrigo?
chegou???
tu sim! sê bem vinda
Rach. Adorei este texto sobre Lisboa e o Tejo. Algumas imagens são muito boas. Beijo.
também adorei.
o ponto mais bonitos para se chegar a Lisboa é a Ponte 25 Abril
(e o texto descreve bem)
Ah! E a Brazileira! Vivi aí perto 10 anos...
Boa noite!
Também adorei! Aliás, eu adoro tudo o que meta pontes. As pontes sobre os rios, as pontes ligadas aos feriados e fins-de-semana, as pontes nos dentes e a velha ponte-fiada na lojeca de bairro; "aponte aí que logo venho cá pagar". Ah! e "não aponte que é feio!".
Saio de mansinho a assobiar a Ponte do Rio Kwai...
(agora tramaste-me e em bom português)
eu?
falo de amor que perdura? (que acredito que exista... aqui em vida?)
Continua a divagar...porque os olhos do teu avô tinham aquele brilho do crente
A Ponte do Rio Kwai, não é um clássico? Também há as Pontes de Madison County, les Amants du Pont Neuf...le pont japonais de Monet...Bridge trouble water...Tantas pontes, pontes aereas...mas nã apontes o quê digo
Rach F. S. - Não preciso de divagar mais do que divago. O que leste não sabes a quem se dirigia nem a quando datava
Teresa F.S.-Tens razão...mas a que eu me dirijo, e a que é que me refiro no comentário?..Não biques, please.
não biquei.
não percebo porque razão foste ao Voando fazer semelhante comentário como se conhececes um segredo por desvendar. Se quiseres ser mais explicita é porque me conheces.
Então não fales por enigmas.
bom dia
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