O rio

Le Gour de Conches, G. Courbet
Um dia, das rochas áridas daquele terreno perdido entre montanhas e vales agrestes, um fio de água transparente e cantante, muito tímido e fresco, brotou.
Quantos dias correu sem ser visto?
Ninguém o soube. E, ao pequeno rio nascente, que se avolumava, se enriquecia, com águas cada vez mais puras, fortes e vivas, não lhe interessava sabê-lo.
Uma manhã, um peregrino, tão silencioso, isolado e vagabundo como o rio novo, passou por ali. Os olhos penetrantes fixaram a água corrente. Tocou-a, levou-a aos lábios, bebeu-a com sofreguidão e sentiu a vida que nela palpitava.
Que prazer para o rio saber-se desejado, necessário, saber-se recordado, mesmo quando o peregrino partia e só voltava no dia seguinte.
Porém, na Aldeia Velha onde a pureza do rio e a do olhar do peregrino não tinham lugar, alguém se espantou, ao notar a verdura que nascia naquelas rochas, da vida que brotava nos terrenos secos, da luz que irradiava, mais forte ainda, da figura já tão estranha e perturbante do peregrino que estava ali uns dias a descansar…
Seguiram-no, vigiaram-no, descobriram o rio. Foi um correr à nascente, um querer, toda a gente, fruir, profanar a doçura, a beleza dos encontros tão suaves e ardentes do rio – agora grande, cantando hinos de vitória – e do peregrino dos olhos brilhantes…
Tudo mudou, subitamente. A poesia fugiu, a intimidade retraiu-se, o rio pareceu banal, o peregrino irritante…
Então, certa noite, a hora não costumada, a amada figura se reflectiu nas águas do rio misterioso, tão fatigadas por tanto serem olhadas e tocadas por mãos estranhas.
E o peregrino despediu-se.
– Adeus, meu rio, vou-me embora, não te quero mais… Talvez te queira ainda… Mas eu sou, acima de tudo, um peregrino e o hábito de muitos anos não se pode alterar. O meu destino é partir, mudar sempre. Se ficasse, não seria verdade, teria uma personalidade dupla… Guarda, no entanto, a minha amizade…
– Não! – gritaram as águas, num sussurro que morreu nas pedras – não, não quero a tua amizade!
– Então, que queres?! – o peregrino olhava atónito.
– Amor! – gritou o rio. E as rochas floridas que tinham sido áridas e os vales que tinham sido secos repetiram, até se perder na distância, o eco angustiante daquela palavra…
– AMOR, Amor, amor, a-m-o-r…
Quantos dias o rio esteve seco?
Ninguém o soube. E ninguém compreendeu porquê. Só sabiam que, sem água, o rio não lhes interessava. E a gente da Aldeia Velha deixou de escalar as rochas e de procurar o rio novo…
Certa manhã a água voltou a correr, sozinha, perdida entre as pedras, contando às aves e às corças – únicas visitantes de agora – seu sonho de ternura, de alegria e de Amor por esse peregrino; reflectindo de memória a imagem querida.
Livre, de tudo e de todos, livre até da emoção causada pela presença daquele que estava agora para sempre ausente, o rio era mais belo, mais forte, mais alegre. Amava sem receios, sem preconceitos, sem esperanças que viessem a morrer.
Ninguém mais pensou nele. O peregrino não voltou.
Mas, enquanto nas suas águas e nas suas pedras viver a imagem do peregrino que um dia ali bebeu, amou e ele – o pequeno rio – adorou e ama, correrá entre as rochas, as montanhas e os vales, o rio que, certa manhã, muito tímido e fresco, naquele local nasceu, por milagre ou maldição.
6 Comments:
E sobre a dor e a alegria
de nosso corpo fremente
o vento passa,
indiferente.
(Texto muito bom! Gosto de te ler.)
Um beijinho
Há rios que devem permanecer ocultos sob pena de secarem.
Bom regresso!
E, bebendo da água desse rio,... diria que,...o AMOR continua a ser a dádiva melhor que a vida recebeu,...sempre que esse mesmo AMOR,...seja tão transparente e puro, como as águas que brotam das nascentes e correm para o mar.
Muito bonita a tua história.
beijo
às vezes é melhor nem sabermos que existem certos rios
beijo
Para o anónimo de 21/01/09 das 12:55:
Olá, bela guardadora de rebanhos,
Então que te diz o vento? Certamente, que é vento e que passa.
Fica bem.
Voltar...com a pureza da ÁGUA.
Gostei de te ver de novo.
Saltitante como um riacho novo. Em rio afluente.
Bjinho
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